Na última semana da mostra estamos promovendo uma "Visita Monitorada" aberta ao público em geral. Aguardamos sua presença e contamos com sua divulgação!
17/10/2010
BEM MAIS PERTO - por Douglas Negrisolli
Escrever uma crítica de uma exposição bem realizada não é fácil. Posso fazer tentativas de comentar as expressões de três artistas que estão ao mesmo tempo distantes e unidos pelo mesmo senso de proximidade com o expectador.
Logo na entrada da exposição podemos perceber um trabalho intenso da artista Cristina Suzuki. Ela utiliza texturas digitais que lembram rendas propriamente dita. São várias formas que estão em um fundo amarelo claro sobre a tela impressa em verde claro, que nos remetem a Op Arte e talvez a Web Arte do final dos anos 90. Cristina faz um trabalho impecável de impressão, que provavelmente é terceirizada, não se vê nenhuma alteração ou intervenção com tintas e trabalho manual: Série Rendas Digitais. As formas quadradas evocam um movimento e uma circularidade que não sabemos se foi algo produzido intencionalmente ou não, simplesmente está lá. Ainda na entrada, a peça da Cristina introspecta no visitante que algo naquele lugar é arte, os artistas não utilizam da forma mais tradicional que é colocar o texto justamente no início da mostra para conduzir o visitante, mas sim o deixam ter suas próprias conclusões a cerca da mostra.
Na sala à direita, temos dois trabalhos da Sueli de Moraes e que compõem o todo desta exposição. A artista utiliza diversas linguagens e mostra uma qualidade técnica em todos os trabalhos, principalmente no registro da performance. Voltando às peças da sala, a artista se apropria de alguns elementos e compõe um relicário e nele coloca uma série de linhas douradas que remetem ao fio da vida, ao próprio tear, quando as instala como se fossem uma rede. Uma interação com os fios de ouro; o paralelo feito com o mito grego das Moiras é natural, uma vez que toda a obra exposta da artista está entre a vida e o casamento, ou na verdade, o fim dele – a morte. Há um vidro nesse relicário onde ela dispõe as fotos que serão a gênese de todas suas obras desta exposição. Deste móvel ela imprime uma xilogravura, a instala a sua esquerda e ainda complementa: “Os pingos não eram meus. Não eram...”.
Na sala principal encontramos uma escultura da Sueli e uma colagem do Carlos Ribeiro. Na escultura que está logo na entrada, pés fazem uma alusão à dificuldade do caminhar. Eles se encontram fixos - parados. Pensando na composição dos trabalhos que a Sueli possui, essa escultura está dissonante com o restante da exposição, não faria diferença se não estivesse exposta. Os pés parecem de difícil interpretação onde estão, eles carecem de algo mais significativo, pois a correspondência com a obra do Carlos é quase inevitável, e daí, difícil de ser concluída.
Na parede principal o artista Carlos Ribeiro expõe uma série de desenhos, rascunhos de salas e cômodos que compunham locais de crime. Essas cenas estão identificadas como homicídios, afogamentos e outros delitos. O artista faz algumas intervenções nestes croquis com caneta, que parecem ter saído das ruas para o papel. O formato dos desenhos relembra muito processos de reprodução como as xilogravuras, mas não são – evocam ao expectador uma experiência com a angústia, uma sensação de crise, de descontentamento, mas ainda não uma experiência intensa com a dor própria ou a dor do indivíduo.
Pensando na colagem atrás de um suposto retrato falado, “da Série Alvos” de 2006, há uma dificuldade em se entender a mística da colagem. Ela é um modelo para tiro ao alvo e existem códigos de barras ao redor desta imagem. Há uma provocação com estes códigos de barras e a figura humana, talvez para transmitir a nulidade da vida.
Na segunda sala encontramos as performances da Sueli registradas em vídeo: “Kristall Natch” e “La Nuit de la Saint-Barthélemy” de 2010, ambas produzidas para esta exposição. Transmitem o desejo de um renovo, de uma mudança. No primeiro vídeo (“Kristall Natch”) a artista está em seu quarto sentada na cama e descola as fotos de um álbum, que mais tarde percebemos que é seu álbum de casamento. Faz desse processo uma intensa discussão com o expectador sobre a dor no casamento, da dor provocante em que ela fala da vida e da dor fazendo um dialogo com todas as mulheres que são infelizes em suas relações, mas principalmente sobre a noção de liberdade conquistada pela mulher, que ainda - digamos - não foi plenamente atingida na contemporaneidade. O vídeo tem alguns closes e mostra-a numa vista panorâmica. A cena evoca a solidão e transmite ao espectador a máxima da dor pessoal, mas que é compartilhada. Na segunda performance “La Nuit de la Saint-Barthélemy”, a artista Sueli queima a parte indesejada de todas as fotos que ela recorta, dando continuidade ao ritual. Acontece à noite em via pública, a artista produz um círculo com vários pedaços de tecidos que mancha de preto simbolizando luto (produz uma monotipia do asfalto). Na sequência lembra-nos do significado deste círculo no contexto judaico-cristão que significa proteção, remetendo a proteção divina de que nada possa atingir a pessoa que se encontra em seu interior. Coloca as fotos numa espécie de pira de concreto feita por ela e ateia fogo, que consome tudo e no final faz pequenas cruzes brancas nos mesmos tecidos manchados de preto. A ausência agora é sentida pela provocação em se livrar do ruim, se livrar do passado e continuar vivendo o presente. Esta performance é sem dúvida a obra de arte mais expressiva desta mostra que desejava mesmo estar mais perto do espectador. “Kristall Natch” evoca muito mais uma menina que quer se libertar, mas “La Nuit de la Saint-Barthélemy” é a mulher contemporânea que afirma seu potencial de felicidade e que ao mesmo tempo que tem a paixão assassinada e a dor latente, tem a coragem de se livrar delas.
Indo a próxima sala, podemos encontrar parte integrante da obra da Cristina, são as Rendas Digitais adesivadas no chão e uma composição do Carlos. Aqui sim o trabalho dos três está em real consonância. A composição do Carlos é uma apropriação de cartuchos de balas de diversos calibres em um formato triangular, provavelmente para estabelecer uma conexão com o local expositivo que é reduzido. Misturados aos cartuchos o artista coloca três terços, desenvolvendo um trabalho de montagem com apelo visual muito forte e que qualquer pessoa que já tenha visto uma bala de revolver (mesmo virtualmente) irá estabelecer um vínculo com a violência e a intenção de matar. Aqui o artista faz uma crítica à banalidade da vida ao acaso e certamente questiona o público da real necessidade desse armamento.
Na sala lateral temos duas obras da Cristina com a mesma série, mas aqui com uma diferença, ele parece kitsch, mas não é. A foto ao fundo remete a um bucolismo que sempre participa da obra da artista. A peça sem dúvida tem uma montagem impecável como toda a exposição, no sentido prático. O trabalho “Rendas Digitais 3D” necessita que o espectador utilize um óculos especial que se encontra ao lado, mas a beleza da obra pode muito bem ser observada sem o apelo do 3D, o que não descaracteriza a qualidade de montagem gráfica e física da tela.
Finalizando temos três obras sendo uma de cada artista, que estão ao lado de um texto sobre a mostra e na frente um objeto da Sueli: uma cama sem estrado e colchão que compõe o trabalho da performance e que dá maior alusão ao processo do casamento ao qual ela se refere todo o tempo.
Apesar da consonância e entrosamento muito forte com perspectivas tão pessoais e narrativas que se interpenetram, a exposição poderia ter explorado mais a arquitetura tão rica de um prédio histórico como este da Casa do Olhar. Apesar disto, sem dúvida foi uma das melhores montagens deste espaço no ano de 2010.
Douglas Negrisolli
Historiador e Curador de Arte
Mestrando em Educação, Artes e História da Cultura
24/09/2010
ENCONTRO COM A GENTE
MARQUEM NA AGENDA E DIVULGUEM:
30 DE SETEMBRO ÀS 19h
QUEREMOS CONVERSAR COM VOCÊ
Casa do Olhar
R. Campos Sales, 414 - Centro
Santo André - SP
17/09/2010
16/09/2010
Bem mais perto - da cena do crime, o híbrido ao amor em suspensão
Tudo na existência se dá entre o limite da vida e da morte. Preferimos a vida, sempre. Ou preferimos a morte?
As particularidades da obra de Cristina Suzuki, Sueli de Moraes e Carlos Ribeiro revelam este espaço em que todas as opções são possíveis e onde as limitações acontecem impossibilitando a escolha: milhões de pessoas vivem sem saber o que é escolha. A mesma luneta utilizada por Sueli de Moraes para captar as quedas de um remador é a tecnologia da mira que se aperfeiçoa os atiradores nos alvos apropriados por Carlos Ribeiro.
Na sociedade se refletem os tempos e percepções múltiplas das escolhas individuais e da falta de opção. Estética A e estética B, infinitas possibilidades estéticas ou falta de consciência estética geram o que vemos no cotidiano. A cidade é o resultado destas interações. Os poderes da religião, política, amor e arte revelam o pensamento e o corpo através da auto-ajuda, das rupturas do terceiro setor, baladas para ficar e o cruzamento científico-cibernético presentes na indumentária, nas posturas, na etiqueta da diversidade, a oscilação dos sexos. Igualmente, fé, filosofia de vida - bem elaborada ou quase sem elaboração nenhuma – relacionamentos com e sem mudança de atitude e impulso de atração se traduzem em crer ou não crer, pensar ou não, ficar ou não ficar e contaminar (Vatimo) ou não. Ter ou não ter atitude.
Voltando a arte: ela se dá e se organiza tal como a sociedade é; ela reflete o que é a vida. Não há lente de cinema capaz de dizer o que é a realidade como a análise das relações contemporâneas possibilita. O estado migratório das linguagens exemplifica minimamente estas passagens (Benjamin), múltiplas, imprevisíveis, pós, diversas.
A luneta-mira, da mesma forma pode voltar no tempo e apontar para Vermeer... ele pintava com o auxílio de uma luneta. Uma lente, o conhecimento da pintura pré-eletrecidade, encurtado o caminho, para pontuar o que acontece na pintura de Cristina Suzuki: impressão, pintura gerada no pós-lente, pintura a partir da caixa luminosa. Lemos flusser mas ao invés da filosofia da caixa preta vamos começar a conhecer a filosofia da caixa luminosa. Definiria assim esta mostra, sem a pretensão de dizer o que significa o encontro de um fazedor e duas fezedoras visuais. Vocês estão dentro de uma “Casa Luminosa”, vejam bem de perto: a vida vencendo o crime, a ruptura do matrimônio que gera a noção do amor infinito e a pintura que superou a morte da pintura.
Santo André, 22 de agosto de 2010
saulo di tarso
artista visual, curador independente
linguagens muito singulares, particulares do presente de uma cultura originária como a do ABC
15/09/2010
14/09/2010
O QUE ESTÁ POR VIR...

Carlos Ribeiro - Croquis dos locais de crimes

Cristina Suzuki - sua série Rendas Digitais em diversos suportes

Sueli de Moraes - Vídeos registram performances contundentes
07/09/2010
RELEASE
A Casa do Olhar Luis Sacilotto, o principal espaço dedicado a arte contemporânea em Santo André traz uma exposição inédita destes três artistas visuais que tem a cidade como sede de sua produção.
Carlos Ribeiro fala da violência em suas múltiplas faces e fontes de origem, mostrando sua proximidade e todo o conjunto de fatos que acompanham esse problema social;

Cristina Suzuki apresenta a série Rendas Digitais com construções infinitas geradas a partir de um único desenho, fazendo-nos percorrer os tantos movimentos da pintura na história;

Sueli de Moraes em sua narrativa contemporânea usa diversas linguagens, que passa pela escultura, xilogravura, pintura, performance e vídeo.
Contemplam a idéia de dialogar com o ambiente e pontuar a relação entre seus trabalhos. Em comum a constância da observação de seus cotidianos tão singulares, a força ao transformá-las em questões universais e a multiplicidade de suportes que veiculam suas poéticas.
29/08/2010
Auto Retratos . por Sérgio Niculitcheff
Por ocasião da exposição de Sueli de Moraes no Espaço Cultural Alpharrabio (Santo André, SP)
Tomei o título da mostra, o qual me pareceu bastante significativo, como eixo norteador para que eu pudesse fazer algumas reflexões sobre a produção artística de Sueli de Moraes. Em verdade toda obra artística, quando feita com honestidade, em maior ou menor grau não deixa de ser um auto retrato. Não em seu sentido mais óbvio, como uma representação visual da aparência do artista, mas como uma visão interior mais profunda onde é colocada a expressão dos sentimentos, personalidade, convicções, preferências e outras características mais subjetivas de quem fez a obra.
Especificamente no caso de Sueli, esta particularidade é potencializada, pois a artista coloca nas obras representações plenas de significados pessoais e onde frequentemente elas são auto-referentes, carregadas de conteúdo simbólico advindas de experiências e expressão fruto de vivências, tudo isto sendo a matéria prima para criação. Elas são realizadas com certo caráter projetivo, mas mesmo, assim possuem um aspecto catártico e uma urgência no fazer, obstinado na convicção e no estabelecimento de atributos de significados pessoais para sua execução.
Apesar de aparentemente, numa primeira vista, o conjunto das obras (desenho, pintura e escultura) possa se apresentar como desigual percebe-se um fio condutor estruturado em narrativas onde o conteúdo baseia-se nas experiências particulares que as obras representam, também como por exemplo, a predileção pelo acromático e do uso generoso da cor preta.
Nestas representações de aspecto figurado podemos estabelecer um paralelo com o processo confessional encontrado em Louise Bourgeois ou Leonilson. Nesta curta apresentação não cabe uma análise, com a devida profundidade que a obra de Sueli de Moraes mereceria, mas sem dúvida, que por essas características (e por outras não mencionadas aqui), que seu trabalho se desnuda e se impõe com uma contundência por vezes incomoda para um olhar desavisado, entretanto se mostra plenamente eficaz como manifestação artística de qualidade e como meio de expressão pessoal.
Tomei o título da mostra, o qual me pareceu bastante significativo, como eixo norteador para que eu pudesse fazer algumas reflexões sobre a produção artística de Sueli de Moraes. Em verdade toda obra artística, quando feita com honestidade, em maior ou menor grau não deixa de ser um auto retrato. Não em seu sentido mais óbvio, como uma representação visual da aparência do artista, mas como uma visão interior mais profunda onde é colocada a expressão dos sentimentos, personalidade, convicções, preferências e outras características mais subjetivas de quem fez a obra.
Especificamente no caso de Sueli, esta particularidade é potencializada, pois a artista coloca nas obras representações plenas de significados pessoais e onde frequentemente elas são auto-referentes, carregadas de conteúdo simbólico advindas de experiências e expressão fruto de vivências, tudo isto sendo a matéria prima para criação. Elas são realizadas com certo caráter projetivo, mas mesmo, assim possuem um aspecto catártico e uma urgência no fazer, obstinado na convicção e no estabelecimento de atributos de significados pessoais para sua execução.
Apesar de aparentemente, numa primeira vista, o conjunto das obras (desenho, pintura e escultura) possa se apresentar como desigual percebe-se um fio condutor estruturado em narrativas onde o conteúdo baseia-se nas experiências particulares que as obras representam, também como por exemplo, a predileção pelo acromático e do uso generoso da cor preta.
Nestas representações de aspecto figurado podemos estabelecer um paralelo com o processo confessional encontrado em Louise Bourgeois ou Leonilson. Nesta curta apresentação não cabe uma análise, com a devida profundidade que a obra de Sueli de Moraes mereceria, mas sem dúvida, que por essas características (e por outras não mencionadas aqui), que seu trabalho se desnuda e se impõe com uma contundência por vezes incomoda para um olhar desavisado, entretanto se mostra plenamente eficaz como manifestação artística de qualidade e como meio de expressão pessoal.
portrait | amores residuais . por Saulo di Tarso
Na série “portrait”, Cristina Suzuki avança para espaços mínimos que surgem das matérias residuais do cotidiano. Se bem que um olhar devotado à cor, ao mesmo tempo se lança à investigação das frestas mínimas como a fechadura de uma porta, um corredor que se olha a distância, quase sem identificar o que propulsionar a imaginação, também, a andar pelo campo afetivo mimetizado desses espaços. O mínimo, o penetrável e o impenetrável.
Um neo-kitsch, pop, R$ 1,99, nipo-pernanbucano.
Na série “portrait” o espaço que Cristina elege é a casa. Uma casa retratada pelo tempo com que ela obtura frações do comportamento, as marcas de quem nela vive e das relações constituídas neste espaço em permanente mutação. Uma idéia de abandono emana de ladrilhos rachados; a necessidade de apoio se insinua à partir do talo da planta amarrada improvisadamente a um cabo de vassoura, tendendo a banalidade quase ridícula de uma caricatura fálica. Mas ocorre daí outra pulsação: a do gesto que intermitentemente varre. Ao varrer uma casa ou uma rua varre-se destinos. É assim que se encontra uma definição para além do banal nas definições quase banais da fotografia de Cristina Suzuki para uma revelação da poesia do amor residual.
Melhor dizendo, a fotografia de Cristina Suzuki apreende do espaço as revelações de comportamento e não somente a própria natureza do espaço.
A harmonia é evidente enquanto ciência compositiva de seu olhar e às vezes, de tão óbvia, ela quase é completamente abandonada no escopo da imagem. Tal como é a casa e como são tratados os resíduos que ela colhe nas lentes, um a um. E se estas imagens parecem ingênuas como conteúdo estético elas acentuam, por outro lado, a ingenuidade dos movimentos contínuos de quem não identifica a lógica residual das coisas e a tradução de sentidos e comportamentos que ela reluz. O resíduo indica claramente a ação do sujeito no trabalho de Cristina Suzuki. Caso queiramos investigar o habitante da casa fotografada é só prestarmos atenção no limiar de frestas, janelas, frascos, armários, varais, pedaços de chão e a maneira como se dispõe objetos dentro de outros móveis e a luz estranha que se projeta sobre espaços da intimidade, do banho, do sono e do desejo. Mas há também uma negação do sonho sobre toda a matéria residual. De repente, o interruptor apaga a cena. Porque não se move.
É como se as casas transformassem-se na pele do sujeito que a habita, mascarando desejos de quem ama ou quem quer abandonar a própria casa.
A ruptura no olhar de Cristina Suzuki com a própria linguagem é quando ela propõe a ampliação deste universo micro-afetivo do espaço das relações: a casa vasa através das janelas, procurando o mundo onde outras possibilidades são possíveis. Mas a luz continua vindo do interior da casa para fora. Lá dentro o sol continua pálido.
O mistério é que um muro impõe a linha do horizonte para a janela fechada e a cor reascende o silêncio do limite e deixa restar a simples beleza dos contrastes da cor encontrada no caminho de um passeio estranhamente paralisado, ali, mais uma vez detido - só que, desta vez, também detendo o olhar do espectador – à indagações do que estará por detrás das frestas da janela que nos olha detrás do muro. “Portrait”. Se o que Cristina fotografa são revelações quem vê suas imagens é que é o próprio retratato mas não porque pousa e sim porque vê e é neste instante quem define se as coisas residuais são ou não tão banais dentro da sua própria rede de afetos partindo da significação que a série “portrait” dá aos resíduos. A poeira e os líquidos ou a casa que é dos corpos mas onde o corpo está ausente.
Uma segunda pele para a violência . por Luisa Duarte
Por ocasião da exposição de Carlos Ribeiro no Centro Cultural de São Paulo
Os trabalhos de Carlos Ribeiro habitam o campo da representação da violência. Tal território vem sendo amplamente investigado através de proposições artísticas que tomam o real como ponto de partida. A passagem de uma iconografia da violência para o campo da arte possui inúmeras formas, bem como são muitos os desdobramentos éticos envolvidos quando um artista decide fazer uso de uma situação que envolve um outro, vítima de um determinado tipo de violência.
Na instalação realizada especialmente para o CCSP, Ribeiro exibe uma série de desenhos - retratos e auto-retratos - e uma peça escultórica feita de um empilhamento de pedaços de papelão. Os desenhos, feitos com caneta bic e propositalmente caóticos, evocam retratos-falados, como aqueles que são resultados da descrição de uma testemunha de um crime. Na instalação de Ribeiro, são muitos e colocados um ao lado do outro, fazendo com que a individualidade de cada um se perca num grande mural onde cada rosto mais parece um alvo entre tantos.
A grande pilha de papelão é feita de um material resgatado pelo artista após o uso, são grandes desenhos que servem de alvo para treinos de tiro de policiais. Sobre os papelões rasgados por alas, o artista intervêm, cola pedaços de notas de dinheiro, faz deles diários com trechos de palavras. Assim como os desenhos, sua forma é gasta, caótica, precária, ou seja, exalam uma agressividade coerente com uma violência que se alastra e fere sem pedir passagem.
Em uma primeira leitura, estamos frente a uma obra que se ocupa em pensar os desdobramentos de uma sociedade violenta na qual a dimensão da humanidade vai se perdendo a cada dia. Os inúmeros retratos imaginários, como o artista gosta de chamá-los, não deixam de ser uma forma de revelar aquilo que deveria ser o mais singular em cada um, seu rosto, de forma monótona, repetitiva, em série, findando por revelar a banalidade e a homogeneização que a violência sem lastro tem a capacidade de difundir. Os alvos com as marcas de tiros surgem como corpos empilhados, rasgados, mutilados. Sem diferenças, como números, estatísticas dentro de um quadro de violência urbana. Ribeiro faz uso do desenho para reconstituir, da forma mais precisa possível, o cenário de uma violência real. O que vemos no CCSP é resultado de uma dobra inesperada e contundente, uma dobra que somente a arte tem a capacidade de promover.
Diante de um campo de trabalho permeado pela mais crua realidade, Ribeiro encontrou um modo de doar uma segunda pele para este mundo. Uma segunda pele que, possivelmente, o auxilia a pensar e a conviver com atos tão brutais quanto cotidianos. Mas nesta tradução de um mundo para outro, o artista não aplaca o que há de duro e violento, não há verniz em sua obra, tampouco um uso de desdobramentos éticos duvidosos. O que há em seu trabalho é uma crueza que reflete aquele mundo (o nosso mundo), mas roça, a um só tempo, com seus rostos e suas pilhas de alvos, a lembrança da humanidade ali gasta, esquecida, desperdiçada. Devolver-nos essa lembrança sem maquiar sua imagem é o que oferece a obra de Carlos Ribeiro.
27/08/2010
ENCONTROS
Além do evento de abertura da exposição no dia 16/09/2010 às 19h estamos planejando mais dois encontros.
30/09/2010 às 19:30h um bate papo.
21/10/2010 às 16h uma visita monitorada.
Todos eles abertos a todos os que chegarem.
30/09/2010 às 19:30h um bate papo.
21/10/2010 às 16h uma visita monitorada.
Todos eles abertos a todos os que chegarem.
Carlos Ribeiro . sobre seu trabalho
Retratos imaginários desenhados com caneta esferográfica sobre o verso de alvos de papel, permeados por cápsulas, chumbos, extratos bancários, códigos de barra e volantes de loteria. Sugiro uma reflexão sobre a identidade violentada, através da simulação de um local de crime.



Cristina Suzuki . sobre seu trabalho
Trabalho com diferentes linguagens como fotografia, desenho, gravura, pintura e instalação, partindo da observação de objetos e espaços do cotidiano. Olhar os detalhes mais ordinários e perceber suas belezas. Um objeto que em algum momento recebeu atenção e agora está para ser descartado ou está esquecido em algum canto, coberto pela poeira de muito tempo, carrega parte da história de seu proprietário, de sua relação com o mundo. Resíduos de existências que passaram ou que ainda existem, insistem. Nestes registros parece ser possível contar a história de seus usuários e se identificar com ela.
25/08/2010
Sueli de Moraes . sobre seu trabalho
A linha é muito importante em meu trabalho. É por ela que o olhar percorre caminhos e espaços, se depara com a figura humana e permite a experiência do sentir. Essas linhas aparecem por meio da tinta, do grafite, do fio de aço bordado na pintura ou por vergalhão de uma escultura torneado com as mãos. Em meus projetos de performances, desenhos, instalações, pinturas, fotografia, escultura e vídeo a presença do corpo humano é recorrente, um corpo autobiográfico e que ao mesmo tempo é universal.
08/08/2010
Carlos Ribeiro
Bacharell em Pintura na Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Participou das exposições coletivas: XVI Encontro de Artes Plásticas de Atibaia, SP; Mostra de Artistas do ABC, Casa do Olhar, Santo André, SP (2007); "Incerto" com o Grupo os Tias na Chuva - Escola de Artes Cezar Antonio Salvi, Osasco, SP; Atelier Fidalga e Artistas do ABC Casa da Palavra, Santo André, SP; 31º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional Contemporâneo, SP; XV Encontro de Artes Plásticas de Atibaia, SP (2006); Programa de Exposições Casa do Olhar, Santo André, SP (2005); 1º Salão Nacional Artes de Paraty, RJ (2004); XXIV Salão de Arte Contemporânea de Santo André, SP (1996); XXII Salão de Arte Contemporânea de Santo André, SP (1994) e XIX Salão Limeirense de Arte Contemporânea, SP (1993). Exposições individuais: III Mostra do Programa de Exposições - Centro Cultural São Paulo, SP (2008); Museu Histórico e Pedagógico Cerqueira César, São Carlos, SP (2004); Centro Cultural de Limeira, SP (1994); Itaú Galeria de Arte em Penápolis, SP (1991). Obteve os seguintes prêmios: Menção Honrosa - XV Encontro de Artes Plásticas de Atibaia, SP (2006); Referência Especial do Júri - I Salão Nacional Artes de Paraty, RJ (2004) e Prêmio Estímulo - XIX Salão Limeirense de Arte Contemporânea, SP (1993).
Cristina Suzuki
Formação em Artes Visuais. Participou do I Prêmio Dahruj de Expressão Tridimensional - São Paulo (1990). Recebeu menção honrosa no Salão ACM de São Paulo e Horns Concours no XXX Salão de Arte de São Bernardo do Campo (1991); Mostras coletivas: Salão de Atibaia, SP; Programa Anual de Exposições do Museu de Ribeirão Preto, SP; Tangências Salão de Exposições de Santo André, SP (2009); Trajetórias Galeria Hiato - Juiz de Fora, MG (2008); Arte Pará - Belém; Mostra Momentos do Olhar Salão de Exposições de Santo André, SP (2007); Salão do Recôncavo - São Félix, BA; Salão de Artes SESC Amapá, Macapá; Mostra Fotógrafos do ABC - Casa do Olhar - Santo André, SP; Mostra Experimental de Processos de Criação Casa da Palavra - Santo André, SP; “Incerto” com grupo Os Tias na Chuva - Osasco, SP (2006); Grupo Urbano - Fundação das Artes - São Caetano do Sul; Mostra Tangran de Fotografia em comemoração aos 450 anos da São Paulo - Centro Cultural Nossa Caixa, São Paulo, SP (2002). Mostras individuais: 7 Paralelos “Portrait” - Salão de Exposições de Santo André, SP (2008); “Fotocelular” - SESC Macapá - AP e no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, Juiz de Fora - MG (2007); “Fotocelular” - Espaço Lazuli - São Paulo (2006). Projeto coletivo multimídia “Quase Todos os Dias São Paulo” dirigido por Alberto Bitar - São Paulo (2007).
Em 2010 tem desenvolvido trabalho de curadoria no Espaço Cultural Alpharrabio em Santo André.
Sueli de Moraes
Formação em Educação Artística nas Faculdades Integradas Coração de Jesus (Fainc), Santo André, SP, com Pós-Graduação em Estética e História da Arte (2009) e Arte Educação-Fainc (2008).
Postal para 18 anos de Alpharrabio - 2010
Fotografia - “Olheparaosladosigaenfrentepersista” Faculdade Metodista - Mostra A7 do ABC
Fotografia – “Série Uterino” - Coletiva Quero Estar Aqui – Museu Barão de Mauá
Mostra individual “Autorretratos” Livraria Alpharrabio - 2009
Livepaint no Tupinikim com Rafael Lucena
Instalação ”Vinte e Quatro” Ocupação Coletiva Cuiabá 153
Arte Postal - Acervo - Fundação das Artes - SCS
Performance – “O Nascimento de Suca” 2008
Escultura “Prometeu” e Objeto “O tempo agora é meu” Fainc
Arte Pública - Escultura “Nó” Parque Escola - Prefeitura S. André
Grafite “Tríptico” Grupo Após a Pós 2007
Vídeo Burle Marx apresentado em solenidade / restauro tapeçaria Prefeitura S. André
Aerografia “Autorretrato” Dependências e Salões Fainc
Instalação “Sem Título” 9º Urbano - Fundação das Artes São Caetano do Sul 2006
Arte Pública “Olho” e “Ralador” Casa do Olhar
Objeto “Cadeira Proibida”
Acumulação “Caminho” Fainc 2005
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