As particularidades da obra de Cristina Suzuki, Sueli de Moraes e Carlos Ribeiro revelam este espaço em que todas as opções são possíveis e onde as limitações acontecem impossibilitando a escolha: milhões de pessoas vivem sem saber o que é escolha. A mesma luneta utilizada por Sueli de Moraes para captar as quedas de um remador é a tecnologia da mira que se aperfeiçoa os atiradores nos alvos apropriados por Carlos Ribeiro.
Na sociedade se refletem os tempos e percepções múltiplas das escolhas individuais e da falta de opção. Estética A e estética B, infinitas possibilidades estéticas ou falta de consciência estética geram o que vemos no cotidiano. A cidade é o resultado destas interações. Os poderes da religião, política, amor e arte revelam o pensamento e o corpo através da auto-ajuda, das rupturas do terceiro setor, baladas para ficar e o cruzamento científico-cibernético presentes na indumentária, nas posturas, na etiqueta da diversidade, a oscilação dos sexos. Igualmente, fé, filosofia de vida - bem elaborada ou quase sem elaboração nenhuma – relacionamentos com e sem mudança de atitude e impulso de atração se traduzem em crer ou não crer, pensar ou não, ficar ou não ficar e contaminar (Vatimo) ou não. Ter ou não ter atitude.
Voltando a arte: ela se dá e se organiza tal como a sociedade é; ela reflete o que é a vida. Não há lente de cinema capaz de dizer o que é a realidade como a análise das relações contemporâneas possibilita. O estado migratório das linguagens exemplifica minimamente estas passagens (Benjamin), múltiplas, imprevisíveis, pós, diversas.
A luneta-mira, da mesma forma pode voltar no tempo e apontar para Vermeer... ele pintava com o auxílio de uma luneta. Uma lente, o conhecimento da pintura pré-eletrecidade, encurtado o caminho, para pontuar o que acontece na pintura de Cristina Suzuki: impressão, pintura gerada no pós-lente, pintura a partir da caixa luminosa. Lemos flusser mas ao invés da filosofia da caixa preta vamos começar a conhecer a filosofia da caixa luminosa. Definiria assim esta mostra, sem a pretensão de dizer o que significa o encontro de um fazedor e duas fezedoras visuais. Vocês estão dentro de uma “Casa Luminosa”, vejam bem de perto: a vida vencendo o crime, a ruptura do matrimônio que gera a noção do amor infinito e a pintura que superou a morte da pintura.
Santo André, 22 de agosto de 2010
saulo di tarso
artista visual, curador independente
linguagens muito singulares, particulares do presente de uma cultura originária como a do ABC
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